43ª Mostra Internacional de São Paulo
Resenhas e reflexões do Cinema na Mesa, por Juliana Sabbag

O Paraíso Deve Ser Aqui

Vou aos poucos. Hoje é dia de O PARAÍSO DEVE SER AQUI, do Palestino Elia Suleiman. Um registro cômico sobre o significado do exílio e da busca por um lar. Suleiman deixa sua terra à procura de uma nova vida mas encontra sua casa onde quer que vá. Na foto, uma das grandes cenas do filme, com o próprio diretor, homenageado na Mostra, e o ator @gaelgarciab que faz essa ótima ponta. “Palestino da onde? Da Palestina, ué”. Cheio de imagens simbólicas sobre identidade, o subtexto político e social nos chega ácido e muito bem humorado numa mistura de realidade e imaginação. Onde tudo ou nada é possível.

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A Grande Muralha Verde

A GRANDE MURALHA VERDE é um documentário urgente, responsável e bastante tocante sobre o combate à desertificação, seca, escassez de recursos e radicalização dos conflitos e da migração. O filme acompanha Inna Modja, cantora e ativista do Mali, numa jornada épica pela Grande Muralha Verde da África —uma iniciativa ambiciosa pra fazer crescer um "muro" de oito mil quilômetros de árvores que se estende por toda a largura do continente pra restaurar a terra e fornecer um futuro pra milhões de pessoas. Atravessando Senegal, Mali, Nigéria, Níger e Etiópia, Modja segue a florescente Grande Muralha pela região do Sahel —um dos lugares mais vulneráveis da Terra. Dirigido pelo inglês Jared P. Scott e com produção executiva de Fernando Meireles, The Great Green Wall é daqueles filmes que me devolve a esperança na humanidade e me dá um chacoalho porque é preciso “ousar inventar o futuro”, como bem diz um personagem do filme. “É ser vigilante todos os dias”, como um outro atesta. “É saber que só se é um líder se toda a comunidade se beneficiar”, na voz de outro. São tantas as máximas e as imagens desse doc, que o impacto é nada menos que profundo e relevante. Não percam!

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Papicha

PAPICHA é aquele ‘must see’ da mostra. A história de uma garota na Argélia dos anos 90 que enfrenta, com doçura e amor às raizes, toda e qualquer brutalidade e toxidade de uma sociedade conservadora, em estado de guerra civil. O que ela quer é apenas montar um desfile de moda. Este é o primeiro longa de Mounia Meddour, que o dirige com mãos seguras e competentes, sem cair na mesmice de filmes do gênero sobre o extremismo do Islã. Delicado que só vendo, com imagens que são pura poesia, e sem se abster da reflexão sempre urgente, Papicha, que é o indicado da Argélia ao Oscar de filme estrangeiro, acaba de entrar pro meu rol dos grandes filmes da mostra.

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O Jovem Ahmed

O JOVEM AHMED é mais um típico filme dos irmãos Dardenne, e mais um premiado em Cannes (pela direção). Câmera na mão, inquieta, acompanhando de perto seu protagonista, pouquíssimos cortes, como se fosse um único plano sequência, sem trilha ou firulas estéticas, em tom naturalista, quase documental, é o que revela a autoria dos irmãos Dardenne. Dessa vez, na seara do fanatismo religioso, pretendem refletir a sedução, a manipulação e a dificuldade de resistir a ideias totalitárias quando se é muito jovem. Saí do filme com a sensação de ter visto um mix de Elephant com A Onda. Vi o jeitão do jovem Ahmed em diálogo estreito com os garotos destes outros filmes, a partir da investigação de como se dão os limites dessas ideologias extremas. Aqui, nos Dardenne, o radicalismo do islã e a busca pela Jihad (Guerra Santa). Gostei bastante. Fiquei muito apreensiva e reflexiva.

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Viajantes de Guerra

VIAJANTES DE GUERRA, de Joud Said é daqueles filmes que me transportam pra essa terra mãe, mesmo que não tenha nascido lá. Cresci com meus avós falando árabe em casa. A língua é algo que me toca profundamente e é sempre no cinema onde mais me emociono! Cultura, costumes, falas e gestos que, em alguma medida, contam a minha história. Mas aqui no filme, a saga é de um grupo de viajantes tentando escapar de Alepo, forçados a parar por causa de conflitos à frente. Obrigados a conviver, esperam o fim da guerra na Síria. À parte minha memória afetiva, esse filme é belíssimo, um grande achado da Mostra

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Meu verão extraordinário com Tess

MEU VERÃO EXTRAORDINÁRIO COM TESS, com direção de Steven Wouterlood, é um ‘coming of age’ daqueles que aquecem o peito. Sam passa as férias de verão em uma ilha turística da Holanda. O garoto tem medo de perder toda a família e ficar sozinho. Enquanto lida com esse medo, no fundo está lidando com a morte, tão cara a qualquer infância. Quando conhece Tess, uma garota em busca do pai, passam a formar uma dupla e tanto como amigos criativos, trocando afeto, generosidade, empatia, e porque não amor, seja a natureza que for. Saí leve e tocada. Das boas surpresas da Mostra!

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A Vida Invisível

Cheguei pertinho da dama do teatro e do audiovisual brasileiro. Hoje foi dia de cabine e coletiva de imprensa do filme A VIDA INVISÍVEL, o indicado do Brasil pra concorrer ao Oscar 2020. Karim Aïnouz de quem sou admiradora desde sempre faz um filme bonito e delicado sobre a condição da mulher nos anos 50. Tem alma feminina e tem imagens belíssimas. Cenas de dança piano e amor entre irmãs são muito tocantes. Mas o que gosto mais no filme é a desconstrução da ideia de família, de lar. Guida é uma personagem que entra pra história. Sua relação com Filomena também. Parabéns a toda equipe

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O Farol

Hora de escrever sobre O FAROL, essa obra incômoda e cheia de simbolismos, mas que nada mais é, afinal, uma história sobre identidade. Quem somos e o que nos define. Robert Eggers que já havia dirigido o excelente A Bruxa, volta com o gênero ‘terror psicológico’ pra contar, em preto e branco, a saga de dois faroleiros - papéis de Willem Dafoe e Robert Pattinson (impecáveis), que encaram a solidão, a escassez, o desejo e o passado numa ilha isolada no início do século XX. O que chama a atenção no filme, além das atuações, é o apuro técnico, a cinematografia e, como não dizer, o próprio Farol. Este, que não pode ser acessado pelo guardião mais novo, o conflito mais explícito do filme. A um só tempo, sua luz tenta, assusta, fascina e hipnotiza. O jovem faroleiro e, mais ainda, o espectador. Filmão!

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La llorona

Alma e seus filhos são assassinados em um conflito armado na Guatemala. Trinta anos depois, o espírito dessa mulher passa a atormentar o general acusado do genocídio e absolvido pelo júri. LA LLORONA, de Jayro Bustamante, é o filme de terror social (existe esse subgênero?) que a mostra precisava ter. Que sorte a minha, nos últimos dias, só tenho visto coisa boa. Da Síria à Guatemala, passando pela Macedônia e Rio de Janeiro, vou fazendo minhas viagens a partir das experiências com cada filme. La Llorona é um dos grandes acertos da Mostra. A mistura do sobrenatural com realismo fantástico, somados à reflexão sobre o genocídio indígena e os privilégios de classe, caiu muito bem nessa reta final de Mostra. Excelente experiência !! Passa lá no stories só pra ter o gostinho da música da Chavela Vargas - de quem, por acaso, sou bem fã.

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Deus é mulher e seu nome é Petúnia

Imagine só. Uma mulher rompe uma tradição masculina e estreme uma pequena cidade na Macedônia. Em DEUS É MULHER E SEU NOME É PETÚNIA (de Teona Strugar Mitevska), um filmaço da Mostra, a situação sai do controle quando uma mulher mergulha no rio pra pegar a cruz lançada pelo padre local, num ritual onde só homens participam. Mas quem disse que tem que ser assim? Por que? E é essa a chave do filme. O patriarcado estrutural que esta mulher, a Petúnia do título, vai desafiar até o fim, questionando as instituições e combatendo toda uma sociedade, que bem podia ser a de qualquer lugar do mundo.

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Dente de leite

DENTE DE LEITE está no top 5 da Mostra. Tem muita coisa ainda pra ver, mas esse drama australiano, dirigido pela Shannon Murphy, é muito incrível. A história de uma adolescente com câncer que se apaixona por um rapaz mais velho, traficante de drogas, para o pesadelo de seus pais, dá um bom caldo de discussão. Mas não pense que o filme vai girar em torno da doença ou aquele novelão de família. Babyteeh, seu título original, fala muito mais dos pais e da sociedade, do que propriamente da adolescente doente. É sobre a dinâmica que se instala na família com a chegada do rapaz e tudo que vai envolver expectativas, amor, perda, e as pequenas grandes transformações. Nada de novo sob o sol? Talvez. Mas à leveza da protagonista dançando, soma-se a fotografia e a direção de arte, além do casal de pais disfuncionais. E temos aí um ótimo filme de gênero, que caminha muito à frente do que se espera nessa linha.

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Amazing Grace

AMAZING GRACE é maravilhoso!! Aretha Franklin é simplesmente extraordinária. Que mulher!! No seu auge, em 1972, a rainha do soul grava um dos álbuns mais celebrados de sua carreira e o de música gospel mais vendido de todos os tempos. Durante duas apresentações, numa Igreja Batista em Los Angeles, Aretha cantou pra uma plateia emocionadíssima, incluindo Mick Jagger, um dos pontos altos das imagens captadas por Sidney Pollack na época. O material que ninguém teve acesso até hoje é apresentado neste documentário de rara potência e fervor. Uma energia ímpar me envolveu na sala lotada do @cineartecinemas, como se eu tivesse dentro da igreja com Aretha. Imperdível!! Assistam!!

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Wasp Network

Hoje é dia de falar de WASP NETWORK, filme que assisti na cerimônia de abertura da mostra, com elenco estelar. Imagine só: Penélope Cruz, Wagner Moura, Gael Garcia Bernal, Leonardo Sbaraglia, Edgar Ramirez e Ana de Armas, o novo e estonteante rosto do cinema. Todos juntos e misturados nesse thriller político bem latino americano, um dos grandes acertos do filme. Falado em espanhol e rodado em Cuba, traz a história da operação vespa que, no começo dos anos 90, infiltrou agentes secretos cubanos em grupos anticastristas, radicados nos EUA. Na origem deste thriller está o livro “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”, do Fernando Morais. O filme é produzido pela brasileira @rtfeatures e dirigido pelo francês Olivier Assayas. Sim, nosso cinema competente, alçando vôos cada vez mais altos, ao criar obras de interesse global. A história é fantástica e o elenco de primeira linha. Poderia ter alguns minutos a menos, uma construção de personagens mais profunda e menos valorização do rosto e do corpo nu da Ana de Armas, quando o recurso é gratuito, sem mover a narrativa. Traz ótimas passagens, uma Havana inesquecível e o céu e o mar que se revelam personagens indispensáveis. Me lembrou Sicário e Longe da América. Vale pra conhecer a história magnífica desses espiões da revolução comunista.

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