Berlinale 2018 - Dia#03

Karin Ainoux

CENTRAL AIRPORT - KARIM AINOUZ

por Henrique Cury

Depois de assistir a Dansel, uma bomba americana na seção da competição com direito a vaias dos jornalistas, resolvi prestigiar o diretor brasileiro Karim Ainouz ( Madame Satã, Praia do Futuro) na mostra Panorama.

Karim mora em Berlim há 10 anos e já tinha se arriscado num filme “alemão” com Praia do Futuro (2014) que concorreu ao Urso de ouro.

Desta vez o diretor brasileiro entra de cabeça num assunto polêmico ao abordar a questão dos refugiados.

O emblemático aeroporto de Tempelhoff, idealizado por Hitler para ser o maior do mundo mas abandonado depois da segunda guerra é um dos vários totems que atordoam a consciência alemã. Palco de festas undergound após a unificação nos anos 90, Tempelhoff hoje abriga nos seus hangares refugiados, principalmente sírios, que acabam de chegar na Alemanha. Como se fosse uma espécie de purgatório entre o inferno da travessia do mediterrâneo e a tão almejada redenção da vida nova no primeiro mundo. Os imigrantes que querem se estabelecer em Berlim são obrigados a passar por esta quarentena enquanto aguardam seus documentos com status de refugiados.

O filme acompanha o dia a dia de alguns personagens reais com foco em Ibrahim, um sírio de 18 anos cuja estadia em Tempelhoff foi de 16 meses ao invés das quatro semanas prometidas pelo governo alemão.

Misturando um tom documental com momentos de narrativa convencional, o filme de Ainouz se perde na linearidade deixando ao espectador a impressão de imagens vazias que chegam a ser desconexas, deixando o filme por vezes cansativo.

Interessante , no entanto, a retratação da área central de Tempelhoff como parque de laser de alemães enquanto, separados por uma grade, refugiados aguardam a tão esperada possibilidade de um recomeço .

É um tema complexo que merece um debate mais profundo mas a experiência vale pela ousadia de Ainouz, um diretor brasileiro mexendo na mais europeia das feridas.

Juliana Sabbag