Berlinale 2018 - Dia#05

Dovtalov

DOVLATOV

por Henrique Cury

O único filme russo da competição foi exibido na lotada sessão das 9 da manhã no Palast. Dovlatov conta a história do escritor russo Sergei Dovlatov durante um período da sua vida em Leningrado (atual São Petersburgo) no ano de 1971.

A União Soviética, sob a mão de ferro de Brezhnev, comemorava mais um ano da revolução, mas ao contrário dos membros do partido, a população em geral sofria com a falta de perspectiva. Escritores tinham que fazer parte do comitê literário soviético e suas obras necessitavam de aprovação dos camaradas. Além disso, deviam sempre ter um cunho alegórico de apoio ao regime.

Aqueles que não seguissem as regras eram condenados ao ostracismo e, muitas vezes, perseguidos, presos ou exilados. Dovlatov nunca teve suas obras publicadas enquanto morava em Leningrado, mas também nunca desistiu de ser reconhecido. Seus escritos possuíam sempre teor de denúncia e sua visão sobre o universo soviético era sempre rejeitada pelos membros oficiais do governo.

Muitas das obras completas que Dovlatov enviava ao comitê literário acabavam descartadas sem nunca terem sido lidos. Em uma delas, ele descreve como os trabalhadores que construíam o metrô de Leningrado em condições sub-humanas, encontraram os restos mortais de 30 crianças enquanto escavavam.

O destino do manuscrito foi a lixeira da sala da secretária do comitê. Outros escritores tinham os mesmos problemas e muitos foram perseguidos, como seu amigo Joseph Brodsky que acabou no exílio. Nos encontros ilegais destes intelectuais à margem da sociedade, regados a jazz e muita vodca, questionava-se como o povo que deu ao mundo Dostoievsky, Tschekov, Tolstoi, Pushkin, entre outros tantos mestres, agora era calado por um sistema de controle e manipulação. A voz era a única coisa que restava a estes intelectuais e ela ia aos poucos sendo calada. Sergei Antonov só saiu do seu pais em 1989 após a queda do regime, mas morreu no ano seguinte em Nova York aos 48 anos. Ele é hoje considerado um dos maiores escritores russos do século 20. O filme de Alexey German tem ritmo, retrata com vigor a realidade soviética do início dos anos 70 e coloca o russo na lista de grandes cineastas contemporâneos do seu pais. Na coletiva de imprensa, a mídia russa presente em peso lembrou seus prêmios em Veneza por Paper Soldier (2009) e exaltou sua importância no cinema russo atual.

Juliana Sabbag