Berlinale 2018 - Dia#06 - 2

Bixa Travesti

BIXA TRAVESTI

por Henrique Cury

Nem homem, nem mulher. Nem gay, nem travesti. Ou seria homem e mulher, gay e travesti?Um dos filmes mais esperados da mostra Panorama lotou a primeira sessão do Cinestar na Potsdamerstrasse. Como não houve sessão para jornalistas, os ingressos foram muito disputados com marcante presença brasileira. Kiko Goiffman e Claudia Priscila apresentaram o filme ao lado de Linn da Quebrada, que além de personagem principal ajudou no seu roteiro.

Antes do inicio da sessão, Kiko leu um documento que está sendo lido por todos os diretores brasileiros contra o governo Temer. A Berlinale, afinal, é um palco político. O filme brasileiro conta a história de Linn, negra, pobre e sem um gênero definido. Fadada a ser passivamente considerada "a escória da sociedade”, Linn faz de seu corpo a sua libertação. É através dele que ela se comunica, se transforma, sobrevive.

Ela vem da periferia de São Paulo, sua mãe é domestica e através de um discurso libertário se auto-afirma como a “voz de muitos”. Linn é uma artista e junto com sua amiga de infância também sem gênero definido, Jup do Bairro, se apresenta sempre com fantasias sexualizadas e fetichistas em clubes alternativos da cidade.

Ao misturar funk com remixagens eletrônicas, suas performance são uma maneira de confrontar a ordem hétero-normativa branca e machista ao qual, segundo ela, foi imposta. O corpo é o centro de tudo. É dele que vem sua resposta através de uma mistura de travestismo sem silicone com barba e salto alto. É uma mulher com pênis, uma “mulher-cis”. Seu gênero nunca será definido pela sua genitália, diz ela.

Alternando entrevistas numa rádio com shows e momentos de intimidade, Linn é um ícone da liberdade. Não existe rótulos. É uma ode ao pluralismo e a aceitação. Mesmo durante seu tratamento de um câncer no testículo, Linn creditava sua doença a uma necessidade ainda maior de usar seu corpo como instrumento político e fazer dele a sua voz contra o preconceito.

Na sessão de perguntas, Goiffman definiu seu filme como híbrido. É um documentário, mas que por vezes ultrapassa as fronteiras do filme narrativo ou vice-versa. Assim como Linn, que pode ser homem mas ultrapassar a fronteira para ser mulher. Ou ser gay e passar a fronteira para ser trans. Ou vice-versa. Foi aplaudido por mais de cinco minutos após o final da sessão.

Juliana Sabbag