Berlinale 2018 - Dia#06 - 4

Don't Worry...

DON'T WORRY HE WON'T GET FAR ON FOOT

por Henrique Cury

O novo filme de Gus van Sant, exibido na manhã desta terça-feira para jornalistas no Palast, foi ofuscado pela grosseria do ator principal Joaquim Phoenix na coletiva de imprensa. Phoenix destratou vários jornalistas inclusive o representante da TV Globo ao responder de maneira grosseira que odeia “perguntas de festivais” e que não queria estar ali. No final ainda ficou de costas para os jornalistas constrangendo o diretor Gus van Sant.

"Don’t Worry He Won’t Get Far On Foot" marca o reencontro de van Sant e Phoenix após 25 anos quando filmaram "To Die For" ( "Um Sonho Sem limites", 1995). O filme conta a história do cartunista americano John Callahan ( 1951-2010). Callahan era um alcoólatra de mão cheia que sofre um acidente e fica tetraplégico. Sem conseguir se livrar do vício, se rende a um grupo de 12 passos ao estilo dos Alcoólatras Anônimos.

Fugindo do cinema de autor, sua marca característica com a qual venceu a Palma de Ouro em Cannes com Elefante (2003), Gus van Sant se rende ao cinemão mas obteve um bom resultado. Apresentado este ano em Sundance e exibido pela primeira vez na Europa, hoje o filme tem Phoenix como força central e mostra as dificuldades em se vencer o alcolismo e a superação da tetraplegia.

A bebida era a maior deficiência de Callahan e o acidente foi seu resultado direto. A redenção de Callahan está na suas tiras cômicas de humor negro, amados por uns, odiados por outros levando ao cerne do debate sobre o politicamente correto. O filme se passa na transição entre o governo Carter e o governo Reagan (1980) e começou a ser filmado na transição entre o governo Obama e o governo Trump (2017).

Gus van Sant diz que naquela época, em menor proporção, a ascensão do republicano levou a sociedade a questionar o politicamente correto. Alcoólatra e cadeirante e ajudado por um ex-alcoolatra gay, Van Sant diz que Callahan encontrava na sua arte, por vezes agressiva, a única maneira de vencer o preconceito e o vício. Disse ainda que hoje em dia os Estados Unidos vivem um pesadelo político sem precedentes e não existe mais limites para o desrespeito às diferenças.

Joaquim Phoenix tem de longe o melhor desempenho entre os homens até aqui e mereceria o prêmio de melhor ator . Se não fosse pelo papelão na entrevista, contaria com o apoio da maioria dos jornalisas da Berlinale. O filme também tem chances de levar o urso mas tiraria do festival de Berlim a áurea de cinema de autor colocando-o no mesmo patamar dos festivais mais comerciais.


Juliana Sabbag