Berlinale 2018 - Dia#06 - 5

Utoya

Utøya

por Henrique Cury

Oslo, 21 de julho de 2011. Enquanto a polícia se ocupava de uma bomba que explodiu em um prédio do governo deixando oito vítimas, um atirador norueguês de extrema-direita caçava com um fuzil jovens do Arbeiderpartiet (Partido Trabalhista Norueguês) que acampavam na ilha de Uttøya, perto da cidade. O filme de Erick Poppe foi o último a integrar a seleção da competição e a edição do filme terminou, segundo ele, na sexta-feira, um dia após o início do festival.

É de longe, o melhor filme em disputa até agora. Após mostrar em forma de documentário cenas da explosão no centro de Oslo, a história se transporta à ilha de Uttøya onde 500 jovens acampavam. A história segue Emlie ( a excelente atriz Andrea Berntzen), uma das acampantes.

A partir de um sensacional plano-sequência de 72 minutos, cria um suspense de tirar o fôlego. Os 72 minutos do plano foram exatamente o tempo que o atirador esteve na ilha caçando os jovens como animais que se escondiam de um lado para o outro na maior tragédia recente da história da pacifista Noruega.

Foram 79 mortos, quase 100 gravemente feridos e mais de 300 com danos psicológicos severos. Emilie via seus colegas morrendo um a um enquanto se dividia entre ajudar os feridos e salvar sua própria vida.Através de uma direção impecável com cada cena minuciosamente pensada antes do plano, Uttoya 22. Juli leva o espectador a uma imersão nas emoções vividas pelos jovens daquele massacre. Na coletiva de imprensa após a sessão, Poppe diz que nestes oito anos desde o ataque, sempre foi discutido a tentativa de entender como isso pode acontecer num país tão pacífico, além do foco no atirador e sua motivação política.

Nunca, segundo o diretor, o foco foram os jovens que viveram o massacre. Este filme foi um resgate das emoções vividas na ilha naquele dia. Durante as filmagens, muitos foram os questionamentos da sociedade norueguesa se não era cedo para se retratar a tragédia. O foco nos jovens foi o fator de convencimento. Para os noruegueses que assistiram o filme na pré-produção, ele foi um meio de libertação das angústias represadas desde os acontecimentos.

Erick Poppe disse ter tido dificuldades em escalar o casting. Muitos atores renomados se recusaram a fazer o filme.Disse ainda que foi muito difícil reviver a história na mesma ilha onde tudo aconteceu e contou com a ajuda permanente de psicólogos para monitorar não só os atores mas toda a produção que se encontrava em Uttøya. O filme é uma ficção com base nos depoimentos de alguns sobreviventes e a intenção era não causar mais sofrimento aos familiares de vítimas com nomes e personagens reais.

Isso por nenhum instante tira o brilho deste importantíssimo retrato. O filme se faz ainda mais necessário com o crescimento da extrema-direita no mundo. Vários são os países que já possuem governos extremistas ou tendem a este caminho, como no caso do Brasil. A intolerância acompanha estes governos e através de obras como essa devem ser sempre combatidos. A presença de três dos sobreviventes na coletiva de imprensa emocionou os jornalistas. Uttøya 22.

Juli é um forte candidato ao Urso de Ouro, não só pela sua qualidade técnica mas pela importante mensagem política, condizente com o festival em que se lança. Além disso, a jovem atriz Andrea Berntzen, ovacionada ao entrar na coletiva, tem grandes chances de levar o prêmio de melhor atriz. Filmaço.


Juliana Sabbag