Berlinare 2018 - Festival de Cinema de Berlim
Resenhas e reflexões do Cinema na Mesa, por Henrique Cury

O cinema invade Berlim

Berlim foi presenteada com um dia de sol na véspera do início da Berlinale. Os sete graus depois de quase um mês de frio rigoroso até para padrões alemães, animou o encontro de jornalistas e produtores na retirada da credencial. Ao contrário do meu imaginário germânico que tudo estaria funcionando em perfeita ordem, muito trabalho ainda deverá ser feito para que tudo fique pronto até amanhã. São dezenas de pessoas montando os guichets, construindo as passarelas, credenciando profissionais.

A cidade, no entanto, já respira cinema. No aeroporto de Tegel, fotógrafos aguardam artistas e diretores que chegam de todas as partes do mundo. Banners com o urso em pé, símbolo do festival, se espalham por todos os lados, mas é na Potsdamer Platz onde acontece o centro nevrálgico do festival. É lá que está o hotel Hyatt, responsável por abrigar a maioria dos artistas e o centro de imprensa além da maior parte dos cinemas que fazem parte do circuito do festival incluindo o Berlinale Palast onde são realizadas as noites de gala na première dos filmes da Competição.

A partir de amanhã, com a exibição de Isle of Dogs de Wes Anderson será dada a largada deste mega evento com 550 filmes, painéis de discussão, eventos paralelos e um grande mercado de comercialização de filmes exibidos em primeira mão neste, que é considerado o maior evento cinematográfico em termos de público do mundo.

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Central Airport

Depois de assistir a Dansel, uma bomba americana na seção da competição com direito a vaias dos jornalistas, resolvi prestigiar o diretor brasileiro Karim Ainouz ( Madame Satã, Praia do Futuro) na mostra Panorama.

Karim mora em Berlim há 10 anos e já tinha se arriscado num filme “alemão” com Praia do Futuro (2014) que concorreu ao Urso de ouro.

Desta vez o diretor brasileiro entra de cabeça num assunto polêmico ao abordar a questão dos refugiados.

O emblemático aeroporto de Tempelhoff, idealizado por Hitler para ser o maior do mundo mas abandonado depois da segunda guerra é um dos vários totems que atordoam a consciência alemã. Palco de festas undergound após a unificação nos anos 90, Tempelhoff hoje abriga nos seus hangares refugiados, principalmente sírios, que acabam de chegar na Alemanha. Como se fosse uma espécie de purgatório entre o inferno da travessia do mediterrâneo e a tão almejada redenção da vida nova no primeiro mundo. Os imigrantes que querem se estabelecer em Berlim são obrigados a passar por esta quarentena enquanto aguardam seus documentos com status de refugiados.

O filme acompanha o dia a dia de alguns personagens reais com foco em Ibrahim, um sírio de 18 anos cuja estadia em Tempelhoff foi de 16 meses ao invés das quatro semanas prometidas pelo governo alemão.

Misturando um tom documental com momentos de narrativa convencional, o filme de Ainouz se perde na linearidade deixando ao espectador a impressão de imagens vazias que chegam a ser desconexas, deixando o filme por vezes cansativo.

Interessante , no entanto, a retratação da área central de Tempelhoff como parque de laser de alemães enquanto, separados por uma grade, refugiados aguardam a tão esperada possibilidade de um recomeço.

É um tema complexo que merece um debate mais profundo mas a experiência vale pela ousadia de Ainouz, um diretor brasileiro mexendo na mais europeia das feridas.

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Dovlatov

O único filme russo da competição foi exibido na lotada sessão das 9 da manhã no Palast. Dovlatov conta a história do escritor russo Sergei Dovlatov durante um período da sua vida em Leningrado (atual São Petersburgo) no ano de 1971.

A União Soviética, sob a mão de ferro de Brezhnev, comemorava mais um ano da revolução, mas ao contrário dos membros do partido, a população em geral sofria com a falta de perspectiva. Escritores tinham que fazer parte do comitê literário soviético e suas obras necessitavam de aprovação dos camaradas. Além disso, deviam sempre ter um cunho alegórico de apoio ao regime.

Aqueles que não seguissem as regras eram condenados ao ostracismo e, muitas vezes, perseguidos, presos ou exilados. Dovlatov nunca teve suas obras publicadas enquanto morava em Leningrado, mas também nunca desistiu de ser reconhecido. Seus escritos possuíam sempre teor de denúncia e sua visão sobre o universo soviético era sempre rejeitada pelos membros oficiais do governo.

Muitas das obras completas que Dovlatov enviava ao comitê literário acabavam descartadas sem nunca terem sido lidos. Em uma delas, ele descreve como os trabalhadores que construíam o metrô de Leningrado em condições sub-humanas, encontraram os restos mortais de 30 crianças enquanto escavavam.

O destino do manuscrito foi a lixeira da sala da secretária do comitê. Outros escritores tinham os mesmos problemas e muitos foram perseguidos, como seu amigo Joseph Brodsky que acabou no exílio. Nos encontros ilegais destes intelectuais à margem da sociedade, regados a jazz e muita vodca, questionava-se como o povo que deu ao mundo Dostoievsky, Tschekov, Tolstoi, Pushkin, entre outros tantos mestres, agora era calado por um sistema de controle e manipulação. A voz era a única coisa que restava a estes intelectuais e ela ia aos poucos sendo calada. Sergei Antonov só saiu do seu pais em 1989 após a queda do regime, mas morreu no ano seguinte em Nova York aos 48 anos. Ele é hoje considerado um dos maiores escritores russos do século 20. O filme de Alexey German tem ritmo, retrata com vigor a realidade soviética do início dos anos 70 e coloca o russo na lista de grandes cineastas contemporâneos do seu pais. Na coletiva de imprensa, a mídia russa presente em peso lembrou seus prêmios em Veneza por Paper Soldier (2009) e exaltou sua importância no cinema russo atual.

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Bixa-Travesti

Nem homem, nem mulher. Nem gay, nem travesti. Ou seria homem e mulher, gay e travesti?Um dos filmes mais esperados da mostra Panorama lotou a primeira sessão do Cinestar na Potsdamerstrasse. Como não houve sessão para jornalistas, os ingressos foram muito disputados com marcante presença brasileira. Kiko Goiffman e Claudia Priscila apresentaram o filme ao lado de Linn da Quebrada, que além de personagem principal ajudou no seu roteiro.

Antes do inicio da sessão, Kiko leu um documento que está sendo lido por todos os diretores brasileiros contra o governo Temer. A Berlinale, afinal, é um palco político. O filme brasileiro conta a história de Linn, negra, pobre e sem um gênero definido. Fadada a ser passivamente considerada "a escória da sociedade”, Linn faz de seu corpo a sua libertação. É através dele que ela se comunica, se transforma, sobrevive.

Ela vem da periferia de São Paulo, sua mãe é domestica e através de um discurso libertário se auto-afirma como a “voz de muitos”. Linn é uma artista e junto com sua amiga de infância também sem gênero definido, Jup do Bairro, se apresenta sempre com fantasias sexualizadas e fetichistas em clubes alternativos da cidade.

Ao misturar funk com remixagens eletrônicas, suas performance são uma maneira de confrontar a ordem hétero-normativa branca e machista ao qual, segundo ela, foi imposta. O corpo é o centro de tudo. É dele que vem sua resposta através de uma mistura de travestismo sem silicone com barba e salto alto. É uma mulher com pênis, uma “mulher-cis”. Seu gênero nunca será definido pela sua genitália, diz ela.

Alternando entrevistas numa rádio com shows e momentos de intimidade, Linn é um ícone da liberdade. Não existe rótulos. É uma ode ao pluralismo e a aceitação. Mesmo durante seu tratamento de um câncer no testículo, Linn creditava sua doença a uma necessidade ainda maior de usar seu corpo como instrumento político e fazer dele a sua voz contra o preconceito.

Na sessão de perguntas, Goiffman definiu seu filme como híbrido. É um documentário, mas que por vezes ultrapassa as fronteiras do filme narrativo ou vice-versa. Assim como Linn, que pode ser homem mas ultrapassar a fronteira para ser mulher. Ou ser gay e passar a fronteira para ser trans. Ou vice-versa. Foi aplaudido por mais de cinco minutos após o final da sessão.

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Don't worry he won't get far on foot

O novo filme de Gus van Sant, exibido na manhã desta terça-feira para jornalistas no Palast, foi ofuscado pela grosseria do ator principal Joaquim Phoenix na coletiva de imprensa. Phoenix destratou vários jornalistas inclusive o representante da TV Globo ao responder de maneira grosseira que odeia “perguntas de festivais” e que não queria estar ali. No final ainda ficou de costas para os jornalistas constrangendo o diretor Gus van Sant.

"Don’t Worry He Won’t Get Far On Foot" marca o reencontro de van Sant e Phoenix após 25 anos quando filmaram "To Die For" ( "Um Sonho Sem limites", 1995). O filme conta a história do cartunista americano John Callahan ( 1951-2010). Callahan era um alcoólatra de mão cheia que sofre um acidente e fica tetraplégico. Sem conseguir se livrar do vício, se rende a um grupo de 12 passos ao estilo dos Alcoólatras Anônimos.

Fugindo do cinema de autor, sua marca característica com a qual venceu a Palma de Ouro em Cannes com Elefante (2003), Gus van Sant se rende ao cinemão mas obteve um bom resultado. Apresentado este ano em Sundance e exibido pela primeira vez na Europa, hoje o filme tem Phoenix como força central e mostra as dificuldades em se vencer o alcolismo e a superação da tetraplegia.

A bebida era a maior deficiência de Callahan e o acidente foi seu resultado direto. A redenção de Callahan está na suas tiras cômicas de humor negro, amados por uns, odiados por outros levando ao cerne do debate sobre o politicamente correto. O filme se passa na transição entre o governo Carter e o governo Reagan (1980) e começou a ser filmado na transição entre o governo Obama e o governo Trump (2017).

Gus van Sant diz que naquela época, em menor proporção, a ascensão do republicano levou a sociedade a questionar o politicamente correto. Alcoólatra e cadeirante e ajudado por um ex-alcoolatra gay, Van Sant diz que Callahan encontrava na sua arte, por vezes agressiva, a única maneira de vencer o preconceito e o vício. Disse ainda que hoje em dia os Estados Unidos vivem um pesadelo político sem precedentes e não existe mais limites para o desrespeito às diferenças.

Joaquim Phoenix tem de longe o melhor desempenho entre os homens até aqui e mereceria o prêmio de melhor ator . Se não fosse pelo papelão na entrevista, contaria com o apoio da maioria dos jornalisas da Berlinale. O filme também tem chances de levar o urso mas tiraria do festival de Berlim a áurea de cinema de autor colocando-o no mesmo patamar dos festivais mais comerciais.

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Culinary Cinema

Estes dois assuntos que amamos tanto estão reunidos na “Culinary Cinema”, mostra que aconteceu no Festival de Berlim sob o tema "Life is Delicate". E, claro, conversamos com exclusividade com Tomas Struck, curador do evento, que está em sua 12 ª edição .


Em um jantar depois de uma sessão de filme de Singapura, ele contou ao Cinema na Mesa que documentários focados em comida, chefs e alimentos --e também em temas mais densos, como a indústria, desflorestamento e sobrepesca-- estão ganhando peso no circuito. Neste ano, foram exibidos oito documentários no “Culinary Cinema”, além de um filme de ficção sobre comida.


Struck também disse que quer experimentar um formato semelhante ao do Cinema da Mesa em Berlim, unindo jantar e discussão sobre filmes. “É a noite perfeita. Era o que costumávamos fazer: a gente assistia um filme e depois saía para comer e falar sobre ele. E era aí que você achava as coisas mais interessantes”, diz.

 

Faz sentido, já que para Struck a experiência do gosto comanda muitos aspectos da vida, servindo de espinha dorsal para a existência humana e para nosso comportamento social. “Comemos para lembrar e bebemos para esquecer”.

 

Para acompanhar a conversa, Struck sugeriu abrir uma garrafa de vinho brasileiro ... e falar sobre a produção do cineasta americano Jonathan Nossiter, que já morou no Brasil, e produziu os filmes “Mondovino” e “Natural Resistance”, sobre a indústria de vinhos no mundo. Outros dois assuntos que gostamos muito.

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Isle of Dogs

Desde que soube que Wes Anderson abriria o festival com uma animação, tive certa curiosidade sobre o porquê desta escolha.. O peso do diretor ou a magnitude da obra?

A sessão para jornalista hoje em Potsdamer Platz que abriu as sessões do festival estava abarrotada. Eram duas salas de aproximadamente 600 pessoas cada uma , de todo o mundo com seus bloquinhos de anotações. Tive a sorte de cair na sala do júri e sentei algumas fileiras atrás do presidente Tom Tykwer e da bela atriz belga Cécille de France.

Isle of Dogs é uma animação ousada. Em um futuro próximo na cidade japonesa de Meagasaki, o corrupto prefeito Kobayashi é eleito através de uma eleição fraudulenta que dividiu o congresso e ameaçou sua governabilidade.. Através de estudos falsos com interesses ocultos de indústrias farmacêuticas , uma gripe canina assola a região fazendo o prefeito tomar uma medida populista de isolar os cães doentes em um aterro sanitário numa ilha próxima a cidade. O filme permeia a relação entre as gangs de cães e ,com a ajuda de ativistas de Megasaki, provar que são objetos de um esquema fraudulento capitaneado pelos dirigentes no poder.

Apesar da estética audaciosa e da tentativa de se inserir em um debate politico, o filme não chega a ser original. A animação Valsa com Bashir (2008) do israelense Ari Folman sobre a guerra no Líbano foi o primeiro a misturar recursos gráficos com conteúdo político.

É fato que o momento mundial pede uma reflexão de como somos governados e como podemos renovar nossos sistemas políticos. Talvez a intenção de Anderson tenha sido escancarar o tema para cutucar alguns modelos obsoletos do capitalismo e ser mais uma voz anti-Trump. O resultado, no entanto, não condiz com a importância do tema.

Após a fria recepção e dos poucos aplausos ao final, descobri que a escolha do filme para abrir o festival foi uma decisão política. Tudo aquilo o que o filme quer combater.

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Las Herderas

O primeiro grande filme em competição desta Berlinale é o paraguaio e tem coprodução brasileira! Estreando seu primeiro longa, o diretor nascido em Assunção levou ao Palast uma história belíssima retratada no coração da sociedade paraguaia.

Chela e Chiquita formam um casal há muitos anos. Ambas vivem um difícil momento financeiro e precisam vender seus bens para poder sobreviver. Chela pertence à elite paraguaia enquanto o roteiro sugere que Chiquita era sua empregada domestica antes do relacionamento começar.

A dinâmica do casal é bem definida. Chela é passiva, inclinada a depressão e vive de memórias enquanto Chiquita é extrovertida e comanda a vida das duas, inclusive a compra regular de Rivortil e calmantes da companheira.

Uma dívida bancária leva Chiquita a prisão e Chela se vê sozinha em um mundo novo sem saber lidar com seus próprios anseios.

Apoiando-se no velho Mercedes herdado de seu pai, uma das poucas coisas que lhe resta, Chela começa a prestar serviços de taxi à senhoras da alta sociedade paraguaia, que vivem no seu bairro e se encontram regularmente para jogar cartas.

Enquanto se divide entre visitas a penitenciária de Assunção e a casa de suas passageiras, Chela conhece Angy, a vibrante e sexualizada filha de uma de suas vizinhas. Angy faz Chela sonhar com aquilo que poderia ter sido e um novo espectro de possibilidades se abre em sua vida, conseguindo enxergar a relação disfuncional de poderes que vive há tanto tempo.

Martinessi filma com delicadeza o universo feminino e através da brilhante atuação de Ana Brun (Chela) leva o espectador a refletir sobre como a decadente elite sul-americana do século 20 consegue se adaptar às mudanças impostas pela ascensão de uma nova ordem social e comportamental.

Um dos objetivos de festivais como a Berlinale, é levar ao grande público realidades de lugares distintos, provocando uma visão de como se vive em diferentes sociedades. O filme paraguaio foi uma grande viagem nesse sentido.

Estamos no começo do festival e As Herdeiras pode até não levar o Urso de Ouro mas Ana Brun já é grande favorita ao prêmio de melhor atriz.

O filme foi aplaudido pela maioria dos jornalistas que lotavam o Berlinale Palast as 9 horas da manhã....

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Eva

Isabelle Hupert é a estrela do novo filme de Benoit Jacquot, o veterano diretor francês dos aclamados "Sade" (2000), "Tosca" (2001) e "Adeus Minha Rainha" (2012). No papel de uma prostituta de luxo a sensação é de déjà-vu. Parece que já vimos o filme pela perfeição de Huppert na pele de Eva. Aliás, este talvez seja o maior defeito do filme.

Parece que estamos na continuação de "Elle" que Huppert fez com Paul Verhoeven no ano passado. O filme é uma adaptação do livro do inglês James Chase e já teve um versão no cinema há 50 anos. Bertrand é um jovem enfermeiro que cuida de um escritor idoso. Ele presencia sua morte enquanto trabalhava em seu apartamento e rouba os manuscritos do seu último livro antes de fugir. Bertrand se apropria dos escritos e transforma em uma peça de teatro que faz um estrondoso sucesso em Paris. Ele é agora um renomado e famoso escritor e precisa continuar sua carreira. Caroline, sua rica e bonita namorada, pressiona Bertrand a escrever outro livro, mas esconder a verdade é seu maior desafio.

Em uma ida sozinho à casa de seus sogros nos Alpes, contrata os serviços de Eva e uma relação de poder e conquista se inicia entre o falso escritor e a prostituta dos milionários da região. O resultado da obra de Jacquot tem um tom noir, atuações precisas mas derrapa no conjunto.

Como dito, Huppert não é mais o fator surpresa e o roteiro não se sustenta sozinho. A recepção na sessão de jornalistas foi fria e o filme não deve fazer muito barulho após seu lançamento. O filme passou ao mesmo tempo em três salas do conjunto Cinemaxx e mais uma vez assisti junto com o júri. Desta vez , na fileira da frente, a esplendorosa cabelereira branca de Ryuchi Sakamoto me chamava mais atenção que o tom noir do filme de Jacquot.

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The Prayer

O segundo e último filme francês na competição não empolgou a platéia de jornalistas. "The Prayer" conta a história de Thomas, um jovem viciado em drogas que é levado a um centro de reabilitação nos Alpes. Fundado pela igreja católica da região, o estabelecimento, bastante rigoroso, porém acolhedor, reúne jovens de diferentes países e realidades sociais.

O filme conta o dia a dia dos internos, desde as duras cenas de desintoxicação quando Thomas chega e sofre de abstinência de heroína, passando pela difícil adaptação e negação até a entrega à religião como apoio para se reerguer. Passando por cenas que lembravam rituais de auto-ajuda o filme possui dois momentos marcantes: a cena em que Thomas finalmente se entrega à musica e canta junto com seus colegas e quando, numa festa de confraternização entre a ala de homens e de mulheres, muitos fazem discursos numa espécie de sessão dos Narcóticos Anônimos.

Nesta última cena fica clara a identificação da droga-adição como um sintoma de um trauma causado na infância na maioria dos dependentes. Abuso sexual, omissão paterna, violência doméstica eram algumas das histórias. E a infância, sempre ela, jardim fértil da instalação do evento traumático que posteriormente se desloca para o inconsciente gerando o sintoma, sendo a droga não só um modo de anestesiar o passado mas também um modo de não esquecê-lo.

Cedric quis tentar estabelecer uma relação entre o prazer das drogas e a redenção na fé e na oração. Na entrevista coletiva após o filme disse que um dos objetivos era mostrar que o êxtase obtido com as drogas pode ser substituído pela devoção e entrega à religião. Não convenceu os jornalistas que receberam o filme com frieza.

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Utøya

Oslo, 21 de julho de 2011. Enquanto a polícia se ocupava de uma bomba que explodiu em um prédio do governo deixando oito vítimas, um atirador norueguês de extrema-direita caçava com um fuzil jovens do Arbeiderpartiet (Partido Trabalhista Norueguês) que acampavam na ilha de Uttøya, perto da cidade. O filme de Erick Poppe foi o último a integrar a seleção da competição e a edição do filme terminou, segundo ele, na sexta-feira, um dia após o início do festival.

É de longe, o melhor filme em disputa até agora. Após mostrar em forma de documentário cenas da explosão no centro de Oslo, a história se transporta à ilha de Uttøya onde 500 jovens acampavam. A história segue Emlie ( a excelente atriz Andrea Berntzen), uma das acampantes.

A partir de um sensacional plano-sequência de 72 minutos, cria um suspense de tirar o fôlego. Os 72 minutos do plano foram exatamente o tempo que o atirador esteve na ilha caçando os jovens como animais que se escondiam de um lado para o outro na maior tragédia recente da história da pacifista Noruega.

Foram 79 mortos, quase 100 gravemente feridos e mais de 300 com danos psicológicos severos. Emilie via seus colegas morrendo um a um enquanto se dividia entre ajudar os feridos e salvar sua própria vida.Através de uma direção impecável com cada cena minuciosamente pensada antes do plano, Uttoya 22. Juli leva o espectador a uma imersão nas emoções vividas pelos jovens daquele massacre. Na coletiva de imprensa após a sessão, Poppe diz que nestes oito anos desde o ataque, sempre foi discutido a tentativa de entender como isso pode acontecer num país tão pacífico, além do foco no atirador e sua motivação política.

Nunca, segundo o diretor, o foco foram os jovens que viveram o massacre. Este filme foi um resgate das emoções vividas na ilha naquele dia. Durante as filmagens, muitos foram os questionamentos da sociedade norueguesa se não era cedo para se retratar a tragédia. O foco nos jovens foi o fator de convencimento. Para os noruegueses que assistiram o filme na pré-produção, ele foi um meio de libertação das angústias represadas desde os acontecimentos.

Erick Poppe disse ter tido dificuldades em escalar o casting. Muitos atores renomados se recusaram a fazer o filme.Disse ainda que foi muito difícil reviver a história na mesma ilha onde tudo aconteceu e contou com a ajuda permanente de psicólogos para monitorar não só os atores mas toda a produção que se encontrava em Uttøya. O filme é uma ficção com base nos depoimentos de alguns sobreviventes e a intenção era não causar mais sofrimento aos familiares de vítimas com nomes e personagens reais.

Isso por nenhum instante tira o brilho deste importantíssimo retrato. O filme se faz ainda mais necessário com o crescimento da extrema-direita no mundo. Vários são os países que já possuem governos extremistas ou tendem a este caminho, como no caso do Brasil. A intolerância acompanha estes governos e através de obras como essa devem ser sempre combatidos. A presença de três dos sobreviventes na coletiva de imprensa emocionou os jornalistas. Uttøya 22.

Juli é um forte candidato ao Urso de Ouro, não só pela sua qualidade técnica mas pela importante mensagem política, condizente com o festival em que se lança. Além disso, a jovem atriz Andrea Berntzen, ovacionada ao entrar na coletiva, tem grandes chances de levar o prêmio de melhor atriz. Filmaço.

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