Sobre "Dor e Glória"

Dor e Glória

Dor e Glória (Dolor y Gloria) Pedro Almodóvar, 2019, Espanha

Escrevo para me livrar do conteúdo.

• Sobre o filme

  • Almodóvar é um dos cineastas em atividade mais cultuados da atualidade, uma referência quando se trata do cinema contemporâneo. É considerado um cineasta completo – roteirista, diretor e produtor –, com uma carreira consolidada num estilo original, basicamente constituído pela estética e tramas exageradas em narrativas trágicas e melodramáticas, e cenários coloridos.

  • Dor e Glória é o 21o. longa-metragem de Pedro Almodóvar, que está prestes a completar 70 anos, idade propícia para reelaborar reminiscências biográficas e experiências pessoais. Essencialmente é este o procedimento que constitui a matéria de Dor e Glória, por meio do domínio de uma narrativa em que o tempo de infância e da vida adulta são alternados e misturados. “Não é minha autobiografia, mas sim o filme que me representa mais intimamente” – declarou o cineasta no Festival de Cannes deste ano, por ocasião do lançamento do filme.

  • Salvador Mallo (Antonio Bandeiras) é o alter ego inequívoco de Almodóvar, um personagem cujo figurino foi declarado do guarda-roupa do realizador, além de o corte de cabelo ser o mesmo. Vivendo praticamente recluso em seu confortável apartamento em Madri, decorado com quadros e livros do próprio Almodóvar e situado na rua onde o cineasta mora na realidade, Salvador enfrenta um longo período longe das câmeras. O protagonista, consumido por dores físicas e psicológicas, está paralisado por um bloqueio criativo.

  • Em Dor e Glória, a volta ao passado se dá em flashbacks dispostos em temporalidade não linear. Esses flashbacks são muitas vezes estimulados pelos efeitos da heroína (introduzido pelo ator semidecadente Alberto Crespo, papel de Asier Etxeandia), mergulhando com maior intensidade nas lembranças. O retorno de Salvador à infância acontece de modo a descortinar a relação com a mãe, o pai, a paixão pelas artes, a descoberta da homossexualidade. Almodóvar constrói, nesse sentido, pequenas memórias nas quais elenca as lembranças afetivas que permaneceram: o cheiro de urina e jasmim no cinema de antigamente, o corpo nu de um homem, o gosto do pão com chocolate oferecido pela mãe.

  •  O trânsito entre presente e passado tem sido um recurso cada vez mais constante no cinema de Almodóvar, especialmente a partir de Fale com Ela (2002), passando por Má Educação (2004), Volver (2006), Abraços Partidos (2009) e Julieta (2016). Dessa maneira, o cineasta elabora, aos poucos, as complexas personalidades de seus protagonistas, adensando os dilemas que vivem

  • Dor e Glória traz os temas recorrentes da obra de Almodóvar: o amor pelo cinema, o encanto pelas mulheres, o exaltar da figura da mãe, o despertar do desejo, a homossexualidade e a religião. São assuntos ligados à sua história de vida. A estrutura é o drama que há décadas está presente em seus filmes, mas a cada nova produção percebe-se um refinamento nessa fórmula, a tal ponto que neste filme o drama se revela minimalista em sua construção imagética.

  • As cenas continuam multicoloridas, repletas de texturas, mas se desenvolvem em conversas e silêncios entre o protagonista e a secretária, o ator com quem está brigado, a mãe, o ex-namorado. Assim, Almodóvar tempera o tom dramático com boas doses de melancolia. Ao mesmo tempo, o filme é alegre e iluminado, contando com o final feliz e a esperança, ingredientes que, além de salvar o cineasta, gratificam o espectador.

  • ü  O elenco adquire destaque decisivo para o sucesso do filme, especialmente Banderas (premiado como Melhor Ator no Festival de Cannes), que já atuou em oito filmes de Almodóvar. Em Dor e Glória, a experiência de vulnerabilidade física é conjunta entre o ator e o cineasta: o primeiro passou por três cirurgias de coração bastante severas, enquanto que o segundo afirma ter ficado sozinho, em Madri, depois de passar dois anos sem ver as pessoas e responder a telefonemas. “O filme nasce desse isolamento e do sofrimento físico, sobretudo as enxaquecas que não me abandonaram e a dor nas costas. Porque uma vez que te abrem não voltas a ser o mesmo. Minhas costas estão cheias de ferros, parafusos e cimento cirúrgico, que não é como o dos pedreiros mas quase. E ao mesmo tempo, eu não queria que o filme fosse um gemido” – declarou Almodóvar.

  • Além de Antonio Banderas, há outros habitués do cinema do diretor, como Penélope Cruz e Julieta Serrano, como diferentes versões da mãe de Salvador, Jacinta Mallo. Um dos filmes mais conhecidos no qual Julieta participou foi Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988), que também conta com Banderas no elenco.

    Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos


  • Uma das sequências mais luminosas do filme é a das lavadeiras: um pequeno grupo de mulheres, entre elas Jacinta (Penélope Cruz), lava lençóis na beira do rio e, para que sequem, os estendem sobre juncos. Uma das lavadeiras é a cantora espanhola Rosalía, uma das mais importantes estrelas da música espanhola, que canta “A tu vera” (canção de Lola Flores), enquanto trabalha.
    “A tu vera” com Lola Flores

  •  A metalinguagem, o filme dentro do filme, é explicitada no ato final de Dor e Glória quando a câmera se afasta e a cena cinematográfica é desmontada. Há, contudo, outras referências à 7a arte, como a tela em branco na frente da qual o ator Alberto interpreta a peça escrita por Salvador (outra cena bastante luminosa). Além disso, parece clara a inspiração no clássico Oito e Meio, de Frederico Fellini (1963), com Marcello Mastroianni como alter ego do diretor. Oito e Meio

  • Sobre as reflexões
    O filme fala sobre envelhecimento, especialmente sobre a encruzilhada entre a velhice triste e solitária ou, ao contrário, apaziguada e produtiva. Para tanto, o personagem se vê diante da necessidade de um balanço de sua vida pessoal e profissional.

  • Para chegar a um final esperançoso e feliz, há diversas retomadas, como se para continuar a vida fosse preciso atar os nós que marcaram a trajetória do personagem: o desejo, a homossexualidade, o namoro mal resolvido, a relação com a mãe e com a arte. Nesse sentido, a montagem é bastante fluida e convincente, natural como os fluxos de memória de cada um de nós.

  • Vivemos em tempos simultâneos, entre as exigências do presente e nossas recordações, boas ou más, do passado. O futuro possível estaria na superação de traumas? Emblemático é o fato de o personagem adquirir forças após a longa e civilizada conversa com seu amor de juventude, que aparece de modo inesperada. Depois disso, ele se levanta, o que é mostrado na ida ao médico, na resolução de se tratar, em largar as drogas etc. É como se essa relação habitasse seu corpo, nas dores físicas e psicológicas, que são expurgadas a partir do momento em que tudo é passado a limpo.

  • Projetar-se para o futuro significa ser possível superar traumas que, no caso de Salvador, produzem o bloqueio criativo, ou seja, voltar a filmar. ”Sem o cinema, a vida não tem sentido”, diz ele em determinado momento. Mesmo porque arte e vida se confundem quando se é um artista para valer. Filmar corresponde a um impulso vital, de interferir na realidade, capturá-la, transformá- la.

  • Almodóvar questiona a perenidade das obras de arte e as transformações da percepção ao longo do tempo. Ao rever a atuação de Alberto em um seu filme Sabor após 30 anos do lançamento, Salvador surpreende-se, reconsiderando o julgamento negativo do ator que tinha até então. “O filme é o mesmo, seus olhos é que mudaram” – diz a amiga a Salvador.

A conversa íntima com a mãe idosa, já preparada para morrer e que passa as instruções para seu enterro, é especialmente comovente. Nessa hora de ajuste fino, ela diz que ele havia sido um bom filho, embora confesse suas mágoas (de não permitir que ela fosse morar com ele em Madri quando havia se tornado uma pessoa famosa, por exemplo).

Dor e Glória, enfim, se compõe de um tecido, desse conjunto de acasos que vai se montando em uma narrativa lógica, alinhavado pelo arbitrário da vida, mas também pelo determinismo do desejo humano. É o que move o personagem e, assim, ilumina também a nós.

• Referências

Entrevista com Almodóvar e elenco em Cannes
trilha sonora do filme, de Alberto Iglesias, também um parceiro constante de Almodóvar

Obrigada e até a próxima! Ju


Juliana Sabbag