Sobre "Perfeitos Desconhecidos"

Perfeitos Desconhecidos

Perfeitos Desconhecidos (Perfectos Desconocidos) Álex de la Iglesia, 2017, Espanha

Todo ser humano tem três vidas: a vida pública, a privada e a secreta.


 Sobre o filme:

  • O espanhol formado em filosofia Álex de la Iglesia estreou como diretor em 1991 (com o curta Mirindas asesinas), e praticamente a cada ano lança um novo filme. Recebeu o Leão de Prata no Festival de Veneza 2010 com Balada de Amor e Ódio. Ainda em 2017, lançou O Bar, oito meses antes de Perfeitos Desconhecidos.

    — Balada de Amor e Ódio 
     — trailer O Bar

  • Perfeitos Desconhecidos é um remake de Perfetti Scononosciuti (2016), de Paolo Genovese, vencedor do prêmio David Di Donatello (o Oscar do cinema italiano) de Melhor Filme. Outra versão, francesa, surgiu em 2017, dirigida por Fred Cavayé, com o título Le Jeu, traduzida para o português como Nada a Esconder.

     — Perfeitos Desconhecidos (Paolo Genovese)

     — Nada a Esconder

  • Álex de la Iglesia é também roteirista de Perfeitos desconhecidos, com Jorge Guerricaechevarria, seu parceiro desde 1991, e os roteiristas do filme original italiano.

  • Iglesia é um cineasta autoral que tematiza o inusitado, situações sem escapatória, fazendo com que o espectador mergulhe numa montanha-russa de emoções. Entre cenas que remetem a vários gêneros, entre os quais o humor, o drama e o horror, seu principal alvo é as convenções sociais, confrontando dogmas e estereótipos; caricaturas e exageros estão sempre presentes.

  • Perfeitos desconhecidos beira o melodrama, no limite para o grotesco, influência do cinema de Pedro Almodóvar não apenas pelas características estéticas do filme (como a cor vermelha, que representa o sangue, não visível, que circula nas entranhas), mas também pela tensão, os nervos à flor da pele. O filme pode ser classificado como uma comédia dramática; humor negro, ironia, e suspense estão presentes.

  • Pode-se dizer que Perfeitos desconhecidos é um teatro filmado, devido à condição do espaço cênico limitado, à força dos diálogos (rápidos e espontâneos) e ao exagero nas atuações. A narrativa visual assemelha-se ao teatro.

  • Outra marca dos filmes de Iglesia é certa atmosfera mágica, certo realismo fantástico, com boas doses de esoterismo, nesse caso o eclipse lunar (Lua de Sangue) que, diz a lenda, altera o equilíbrio cósmico e o comportamento emocional das pessoas. Pode-se dizer que a Lua é um personagem do filme, até mesmo o protagonista, já que é por conta do eclipse que o jogo entre os amigos toma forma, e o clima entre eles vai se modificando. Ao mesmo tempo, a Lua funciona como plateia dos acontecimentos em torno daquele jantar entre amigos e, com isso, a ideia de teatro vem reforçada. Nesse sentido, a Lua rege as situações do filme tal qual uma plateia tem o poder de conduzir um espetáculo ao vivo.

  • O diretor amplia a ideia de transformação pelo eclipse em outros elementos, como a briga dos cachorros, a batida dos carros, a ventania e a fotografia na qual nenhum dos fotografados aparece.

  • No eclipse lunar, a Lua é ocultada pela sombra da Terra, quando Sol, Terra e Lua se encontram próximas ou em perfeito alinhamento, estando a primeira no meio dos outros dois corpos celestes. Esse ocultamento da Terra é simbólico em Perfeitos Desconhecidos, representando os segredos, aquilo que não queremos revelar.

  • As máscaras que aparecem na tela junto aos créditos também simbolizam o esconder-se, aquilo que se mostra à frente da nossa verdadeira face. São adereços presentes em várias culturas, em ocasiões especiais (no Carnaval brasileiro, por exemplo), ainda que, na verdade, estejamos sempre vestidos com elas, ou melhor, com várias delas, escolhidas a partir do meio social e das circunstâncias.

  • Muitas dessas máscaras nos créditos são da civilização maia (200 d. C. – 900 d. C.), além do calendário (que também aparece nos créditos) e de objetos decorativos na casa dos anfitriões (Eva e Alfonso, papéis de Belén Rueda e Eduard Fernández). Isso parece remeter ao alto grau de conhecimento sobre astronomia dessa civilização que, a olho nu, identificaram planetas e movimentos do Sol e da Lua, o que só viria a ser conhecido pelos europeus com o advento do telescópio no século 17.

  • O posicionamento da câmera oscila entre o plano aberto, mostrando a cena como um todo, e o zoom nos rostos dos personagens. Assim, o espectador percebe em tempo real o que acontece no apartamento como um todo, o que também é próprio do teatro. Em alguns momentos, o diretor usa plano-sequência, contribuindo também para a sensação de tempo real.

  • É interessante notar como a câmara (na mão) vai rodeando os personagens em volta da mesa, mudando o eixo o tempo todo. O efeito é colocar o espectador no lugar de cada um desses personagens, sob cada ponto de vista. Há, além disso, um simbolismo nisso, o segredo circulando entre eles.

  • Tudo é feito com muita naturalidade — diálogos rápidos, plano e contraplano no início do filme com o objetivo de apresentar as personagens. Quando o eclipse começa a acontecer e a atmosfera na sala de jantar se modifica, a paleta de cores se intensifica, o tom vermelho acentua-se e toma conta do cenário; as cores mais naturais do começo do filme voltam apenas no final.

  • O final do filme aponta para uma espécie de alucinação, fantasia ou sonho, centrado em Eva, a partir do eclipse. Mas outras interpretações são possíveis, por exemplo, justamente o contrário dessa: o jogo e as revelações são “reais” e o final imaginário, isto é, a anfitriã pode estar imaginando como o jantar transcorreria se, por conta de seu celular quebrado, nada daquilo sucedesse. Não podemos esquecer que Eva é psicóloga terapeuta, aquela que conhece e guarda os segredos alheios.


  • Sobre as reflexões

  • Quem é você quando ninguém está por perto? O que passa na sua cabeça que você não pode verbalizar ou dar vazão? É essa incômoda condição humana, desejar/bloquear o desejo (ou não), resultante de normas sociais, que faz com que cada um de nós possua várias versões de si. Há a versão do trabalho, a da família, amigos, redes sociais e tantas quantas forem necessárias para conviver com os outros, também em suas versões. Isso é o mesmo que dizer que vivemos num mundo de falsidades, relações artificiais, mantidas por mentiras ou meias verdades? 

  • Perfeitos Desconhecidos toca em questões delicadas ligadas à intimidade, como os relacionamentos entre casais que, em tese, são os que conhecem mais profundamente um ao outro.

  • Grande parte do filme recai sobre o sexo fora do casamento, mas há também a dimensão da amizade que, entre o grupo, ou melhor, entre os homens do grupo, supõe-se profunda, como se os longos anos de amizade tivesse, como consequência, o descortinamento das versões mais verdadeiras de cada um.

  • Daí decorrem várias reflexões, como: em que medida se pode ser verdadeiro nos vários ambientes?; em que medida procuramos ser o mais verdadeiro possível?; não ser verdadeiro incomoda, gera conflito?; por que algumas vezes optamos em obedecer nosso desejo não aceito pela sociedade e outras vezes não?; o quanto se deve conhecer dos outros?; e de si mesmo?

  • O filme fala sobre a conexão com os mais próximos e no que sabemos dessas pessoas, o que, naturalmente, implica o conhecimento de nós mesmos. A busca pelo autoconhecimento não é tarefa fácil: excita a racionalidade e, ao mesmo tempo, coloca medos e paixões à prova.

  • A premissa de Perfeitos Desconhecidos é: ninguém conhece verdadeiramente alguém enquanto não adentrar no mundo secreto do outro. No contexto atual dos smartphones, o universo que cada um cria dentro de seu celular é cercado de mistérios; por isso, embora o tema abordado seja relativamente comum nos cinemas, aqui ele é tratado de modo original e atual.

  • Há, no filme, a denúncia de atitudes bastante ligadas a certa classe média (dado que os personagens pertencem a ela), que age hipocritamente. A psicóloga Eva, por exemplo, mantém distância e rigor moral burguês em seu relacionamento com a filha adolescente Sofia (Beatriz Olivares), um paradoxo dada a sua profissão. Pepe (Pepón Nieto), outro exemplo, é subestimado pelo grupo, como alguém incompetente e preguiçoso para o trabalho, sem que se conheça a causa verdadeira de seu estado de desemprego. Esse personagem é gay e, apesar dos longos anos de amizade, ninguém sabe disso.

  • No celular de Antonio (Ernesto Alterio), os fetiches sexuais são abundantes, mas quando se depara com uma troca de mensagens entre sua mulher Ana (Juana Acosta) e um desconhecido, enfurece- se. O personagem é extremamente machista, mas mostra sua face solidária, quando o celular de Pepe passa a ser seu, o que fez com que se acreditasse que ele era gay. Assumindo o lugar de Pepe, Antonio revela um autêntico gesto de empatia.

  • Ainda que o filme seja extremamente irônico, o final, centrado em Eva, parece querer dizer que se as verdades vierem à tona e se todos se conhecerem melhor, as relações serão destruídas, sobrando apenas ruínas. Será? Devemos, então, construir e nos manter em mundos particulares, criando mentiras? Em nome de quê?

  • Ou, ao contrário dessa mensagem de destruição pela verdade, ser alguém melhor a partir dela? Compreender e ajudar a mudar, sobretudo os que sofrem com as mentiras e mundos secretos que criam para sobreviver? Talvez seja essa a resposta.

  • A frase de Gabriel Garcia Márquez – “todo ser humano tem três vidas: a vida pública, a privada e a secreta” – resume o argumento de Perfeitos Desconhecidos. Mas, não nos esqueçamos, a vida secreta não é inviolável e, com certeza, é a mais inflamável, a que mais tem capacidade destruidora e demolidora de reputações. Isso não quer dizer que devemos tomar mais cuidado em escondê-la, mas que devemos sempre buscar conhecer, nós mesmos e os outros, o quanto for possível. E abandonarmos preconceitos e julgamentos.

  • Referências
    Filmes que tratam de conflitos em grupos de amigos a partir de revelações pessoais:

  • A Festa (Sally Potter, 2017)

  • O Banquete (Daniela Thomas, 2018)

Obrigada e até a próxima! Ju

Juliana Sabbag