Sobre "Roma"

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Roma (Roma)
Alfonso Cuarón, 2018, México/EUA

Sobre o filme:

Digam o que disserem, nós mulheres estamos sempre sozinhas.

  • Roma recebeu prêmios em diversas categorias nos mais prestigiados festivais de cinema: Leão de Ouro 2018 em Veneza; Globo de Ouro 2019 (EUA); Bafta 2019 (Reino Unido); e Oscar 2019 (EUA) de Melhor Filme Estrangeiro, Direção e Fotografia. Alfonso Cuarón já havia sido contemplado como Melhor Diretor no Oscar 2014 por Gravidade (2013). – trailer Gravidade

  • Além de dirigir Roma, Cuarón também foi responsável pelo roteiro, fotografia e montagem. Nos últimos anos, diretores mexicanos têm sido recorrentemente premiados pelo Oscar: Alejandro González Iñarritu com Birdman (2015) e O Regresso (2016) e Guilermo del Toro com A Forma da Água (2018).

 – trailer Birdman 
 – trailer O Regresso
– trailer A Forma da Água

  • Roma concorreu também na categoria de Melhor Filme no Oscar. Embora não tenha vencido (perdeu para Green Book: o Guia, de Peter Farrelly), vale dizer que são poucos os filmes estrangeiros que receberam essas duas indicações (Melhor Filme e Melhor Filme Estrangeiro). Ao longo da história da premiação, apenas Z (Costa-Gravas, 1969), A Vida é Bela (Roberto Benigni, 1997), O Tigre e o Dragão (Ang Lee, 2000) e Amor (Michael Kanete, 2012).

    – trailer Z
    – trailer A Vida é Bela
    – trailer O Tigre e o Dragão
    – trailer Amor

  • Foi a primeira vez que um filme lançado em streaming (Netflix) é nomeado em várias categorias pelo Oscar. A campanha milionária produzida pela Netflix parece ter colaborado para as dez indicações que recebeu, assim como para o sucesso de público. “É um filme falado em língua estrangeira, em preto e branco e sem atores conhecidos. Com o apoio da Netflix, ele está sendo visto por um público muito maior que se eu optasse por uma distribuição convencional” – declarou o diretor.

  • Baseado nas memórias de infância de Cuarón, Roma trata da história de uma empregada doméstica (Cleo, papel interpretado pela atriz estreante Yalitza Aparício, de origem nativa Mixteca). O diretor dedica o filme a Libo, apelido pelo qual ele e sua família chamavam Liboria Rodríguez, uma mulher de origem nativa que começou a trabalhar em sua casa quando o diretor tinha apenas 9 meses de idade. Rodríquez veio da aldeia de Tepelmeme no estado de Oaxaca e, como muitas empregadas domésticas de famílias latino-americanas, teve um papel central na criação dos filhos dessas famílias. Segundo o diretor, à medida que ele cresceu, se deu conta de que Libo tinha vida própria, necessidades e conflitos, e que não era alguém que somente lavava sua roupa e preparava sua comida.

  • O título do filme é o nome do bairro onde a trama se desenrola, Colonia Roma, uma zona da cidade do México onde a classe alta mexicana se estabeleceu na primeira década do século XX, existindo até hoje suntuosas mansões de inspiração europeia. Cuarón cresceu, de fato, numa casa desse luxuoso bairro. Diferentemente de seus patrões, Cleo e sua amiga Adela (Nancy Garcia), que também trabalha como empregada doméstica na mesma casa, dormem num quarto minúsculo, enquanto os namorados de ambas vivem num bairro muito pobre e distante dali.

  • Preto e branco, ritmo lento e poucos diálogos convidam o espectador a se abrir para sutilezas do filme. Há, nesse sentido, uma grande sensibilidade por parte do diretor para retratar o mundano, o rotineiro, com destaque na fotografia.

  •  A escolha pelo preto e branco relaciona-se ao conteúdo do filme no que diz respeito ao retrato de uma época passada e a certa nostalgia. Passado nos anos 1970, quando as televisões eram PB, há um resgate da memória do diretor. No design de produção, vemos, por exemplo, posters da copa do mundo no quarto do menino, uma referência importante para nos localizarmos e para entrarmos nas lembranças de Cuáron.

  • O uso do PB também confere realismo à história. Ao eliminar as cores, sugere-se a entrada nas verdades internas dos personagens, aproximando o filme de um tom quase documental. Aqui percebemos a inspiração do diretor no Neorrealismo italiano, um movimento cultural situado no pós-II Guerra como leitura de uma Europa despedaçada, como denúncia e comentário sociopolítico da realidade, especialmente as condições de desigualdade, opressão, fome. Outras características dos filmes neorrealistas são: atores não profissionais, luz natural e cenas nas ruas. O título do filme, Roma, além de ser o bairro onde o diretor cresceu, também é uma referência a Roma: Cidade Aberta (Roberto Rosselini, 1945), filme símbolo do neorrealismo italiano.

  • Além disso, o PB também remete aos contrastes, simbolizando as duas realidades díspares entre as classes sociais. Cuarón filmou tudo em tecnicolor e posteriormente editou em PB que, na realidade, agrega nuances e tonalidades de cinza.

  • O filme é composto por planos minuciosamente elaborados e fotografados, de modo que aos poucos nos aproximamos do cotidiano de Cleo e da família para a qual trabalha. Cuáron faz uso de planos longos, colocando o espectador como observador e pretendendo, com isso, fazê-lo compreender a história de Cleo. A profundidade de campo, muito frequente no filme, faz com que se observe o que acontece simultaneamente, provocando uma visão geral dos movimentos da casa, mas, ainda que o espectador possa se sentir dentro das cenas, há um distanciamento, como é a do próprio Cuáron ao narrar.

  • As idas de Cleo ao cinema mostra-se como uma válvula de escape para sua tarefas domésticas, mas também para as crianças de que ela cuida. Nesse sentido, o recurso narrativo é um metarrelato (ou cinema dentro do cinema), onde produções cinematográficas anteriores são homenageadas pelo diretor, inclusive algumas de sua autoria. Em uma delas, Cleo e as crianças vão assistir Sem Rumo no Espaço (1969), um dos filmes favoritos do diretor quando criança e que lhe serviu de inspiração para Gravidade. A cena do parto é similar à que ocorre no filme Filhos da Esperança (2006), e, como em E Sua Mãe Também (2001), a mãe conta aos filhos que seu pai os abandonou num bar ao ar livre próximo da praia.

trailer Filhos da Esperança
– trailer E Sua Mãe Também

  • Há uma cuidadosa recriação de época, não apenas pelos cenários, figurino e programas de TV, mas pela forma tangencial com que apresenta contextos sociais do México nos anos 1970. Uma das cenas refere-se à matança de estudantes, conhecido como “Halconazo”, que aconteceu em junho de 1971, um dos eventos mais tristes da história do país. O incidente começou como um protesto estudantil, retratado na passeata que aparece em Roma, pela libertação de presos políticos e por mais investimentos em educação, terminando num banho de sangue, quando o governo enviou soldados treinados pela CIA, de um grupo paramilitar financiado pelo Estado, conhecido como "Los Halcones", para reprimi-los. A princípio, os paramilitares usaram bastões e varas de bambu empregados na arte marcial japonesa kendo, como os do treinamento que Cleo assiste quando vai em busca do pai de sua criança. A prática do kendo num local distante no Estado do México é uma referência a esses grupos paramilitares e ao massacre.

  • Outro recurso utilizado pelo diretor são os travellings panorâmicos de 180 graus, que acompanham Cleo, da esquerda para a direita e vice-versa, como a protagonista volta do mar, em ótimos ângulos. Os de 360 graus, mais raros, acontecem dentro da casa, proporcionando acompanhar Cleo numa sequência de ações, por exemplo, colocando as crianças para dormir nos quartos de cima da casa, descendo as escadas, recolhendo as roupas sujas, levando-as para a lavanderia e voltando para apagar as luzes da casa, uma a uma. Finalmente, ela retorna ao ponto inicial, simbolizando o ciclo da personagem, sempre no mesmo lugar, como também sugere o final do filme.

  • A imersão do espectador é, ainda, ajudada pelos efeitos sonoros, com bastante destaque: a água no chão logo no início do filme quando Cleo lava o quintal, o barulho do mar, o trenzinho das crianças, o avião no início e final do filme. Essa imersão também se faz com o uso de alguns planos detalhes (que se contrapõem aos planos abertos e profundos mencionados acima), a exemplo do pai chegando em casa, da fumaça do cigarro e o cinzeiro do carro, e mesmo de alguns closes em Cleo, no seu quartinho, sugerindo o confinamento e a opressão.

  • A atuação de Yalitza Aparício é sensível e realista, mostrando doçura, serenidade, preocupação, dedicação e quietude da personagem. A atriz era professora de pré-escola em Oaxaca e, como método do diretor, ficava sabendo das cenas apenas no dia da filmagem, o que conferiu espontaneidade e frescor a sua atuação.

  • Yalitza, contudo, sofreu tentativas de boicote de sua nomeação como Melhor Atriz em algumas premiações, especialmente o Oscar, com argumentos racistas e discriminatórios – “Ela não atuou, ela é assim, fala assim, se comporta assim”; “O Oscar se dá a uma atuação que não tenha nada a ver com você. Ela não é atriz, não tem vocação nem futuro na área, teve a ‘sorte das feias’.”

• Sobre as reflexões

  • Roma é uma metáfora do país e de sua história, seu passado e presente, um relato cru e emotivo sobre o cotidiano oculto por trás da vida de empregada doméstica, uma narrativa desoladora sobre as desigualdades sociais e raciais não apenas do México, mas de toda América Latina colonizada por espanhóis e portugueses.

  • Esses colonialismos se deram com a exploração dos recursos dos territórios – inclusive da população, quase totalmente aniquilada ou escravizada. O México registra hoje uma população de aproximadamente 12 milhões de indígenas, cerca de 11% da população total. São 62 povos indígenas que falam mais de uma centena de línguas diferentes, reconhecidas como línguas nacionais, porém de uso oficial limitado.

  • Esses povos vivem à periferia da estrutura social e, quase que invariavelmente, são tidos como “selvagens”, numa conotação pejorativa e racista que os qualifica como insignificantes, ignorantes, feios etc. As condições de vida dos indígenas mexicanos estão muito abaixo da população branca; todos os municípios indígenas são marginalizados em larga escala, sendo que, no caso das mulheres indígenas, isso ainda é agravado por um severo regime patriarcal. O México é um país extremamente hierarquizado e discriminatório em relação às classes sociais menos favorecidas.

  • Com a pobreza resultante da colonização, os povos nativos migraram e vêm migrando para regiões economicamente mais fortes, vivendo então do subemprego. Em relação às empregadas domésticas, não há rigidez no cumprimento das leis trabalhistas, o que faz com que a informalidade tome conta das regras. Na realidade, apenas agora, em maio de 2019, o Senado mexicano aprovou os direitos trabalhistas das domésticas, com jornada de 8 horas e garantias de espaço digno e seguro nas casas do patrões, bem como seguridade social. A nova legislação foi encaminhada para o Executivo para ser sancionada.

  • O México hoje possui cerca de 2 milhões de empregados domésticos, enquanto que no Brasil esse número é de aproximadamente 7 milhões de pessoas (80% de negros), a maior população doméstica do mundo. Ainda que o Brasil tenha aprovado as leis trabalhistas há mais tempo, cerca de 70% delas vivem em regime informal de trabalho. As cinco maiores concentrações de trabalhadores domésticos (Brasil, Índia, Indonésia, Filipinas, México e África do Sul, por ordem de número) ocorrem em nações com marcante contraste social. Há uma correspondência entre o número de empregadas por porcentagem da população correspondente ao nível de desigualdade do país, além de a possibilidade de ascensão social ser praticamente nula.

  • Dito isso, o caráter de denúncia do filme parece evidente. Embora Cleo seja o centro da narrativa, ela não tem protagonismo, não é a dona da sua história. No México, assim como no Brasil, predomina o discurso da proximidade afetiva, no qual a empregada é tratada “praticamente como se fosse da família”. O que é, afinal, ser “quase da família”? A frase, na verdade, distorce a realidade de laços de família e serve para mascarar a face de uma “senzala moderna”, herança do colonialismo. Ser quase da família significa ter seu nome quase lembrado, sentar-se para almoçar quase na mesma hora que os donos da casa, ser paga quase de forma justa, quase ser ouvida, quase ser respeitada. Cleo, por exemplo, assiste TV com a família, porém sentada na almofada do chão e, ao menor sinal de desconforto familiar, é ela quem se levanta. Você gostaria de ser quase?

  • Com o que Cleo sonha? Qual o dia do seu aniversário? Ela tem familiares vivos? Quais são seus desejos? A família para a qual trabalha não sabe (a avó que acompanha Cleo ao hospital só consegue informar seu primeiro nome e ocupação), mas é Cleo quem coloca as crianças para dormir e as desperta no dia seguinte. É ela quem limpa a sujeira do cachorro, leva e busca as crianças na escola etc. A cena na laje, quando ela se deita com o caçula da família (Pepe, papel de Marco Graf) parece ser emblemática da sua existência – “é bom estar morta”, ela diz.

  • Essa cena também representa a relação de carinho e sentimento que a empregada dedica aos filhos do casal. Pepe é quem diz antes “Estou morto, não posso falar”, numa manifestação poética de inocência, e Cleo abraça a ação infantil. É o primeiro ato do filme que rege toda a relação de carinho e sentimento que a empregada dedica aos filhos de casal.

  • Enquanto a família para a qual trabalha desmorona, o pai sai de casa e os filhos sentem a confusão dos adultos, Cleo se apaixona, engravida, é enganada e deixada à própria sorte. Duas mulheres de diferentes origens compartilham a dor do abandono e, juntas, encontram a resiliência.

  • A personalidade de Sofía (Marina de Tavira) contrasta com a inocência de Cleo. A primeira, em segundo plano, acaba por proporcionar uma espécie de processo de cura – do desespero para a raiva e a aceitação. Na cena do hospital, a impressionante sequência do parto, com a câmara parada, percebemos o desespero de Cleo: tudo acontece ao seu redor, como um pesadelo de que ela não consegue acordar.

  • A cena da praia (que estampa o pôster do filme) é um dos momentos mais bonitos e profundos do filme: o abraço das mulheres em volta das crianças representa uma infinidade de sentimentos. Há sororidade e união, compaixão e empatia, força e afeto, e redenção. Cleo não só salva uma criança, mas salva a si mesma em certa medida, pois é em seguida que ela desabafa com a patroa - “Eu não queria ela [a criança que morreu no parto]” – o que desmistifica a maternidade a qualquer custo.

  • Mostra-se, enfim, uma relação de irmandade, utilizada como artefato narrativo para cadenciar os problemas que as mulheres sofrem. O maior deles, o abandono parental, que acontece em qualquer lugar do mundo. O estigma fica mais cristalizado quando o abandono afeta ambas, patroa e empregada.

  • Para terminar, vale uma pequena comparação entre Que Horas Ela Volta? (Anna Muylaert, 2015) e Roma: os dois filmes narram as relações entre uma empregada doméstica e a família que as emprega, mas enquanto o primeiro dá destaque ao conflitos (de classes, essencialmente) a partir da entrada em cena da filha da empregada, de uma geração contestadora da naturalização da exploração, Roma está primordialmente interessando na relação resultante entre a família e as mulheres pobres que trabalham em sua casa. Cuáron, na realidade, filma tanto a exploração quanto o afeto, procurando entender esse duplo movimento como um paradoxo.

  • Os destinos que os dois filmes dão às empregadas são, além disso, muito diferentes. Em Que Horas Ela Volta?, a empregada e sua filha são emblemáticas de uma classe menos favorecida que se fortaleceu a partir da década de 1990 a ponto de confrontar os patrões, e o final do filme mostra a possibilidade de ascensão social. Já em Roma, Cleo é retratada como o elo mais fraco numa cadeia de relações sujeitas às questões econômicas e ao machismo – Cleo termina o filme exatamente no lugar onde começou.

• Referências
- filme completo Que Horas Ela Volta?

Obrigada e até a próxima! Ju

Juliana Sabbag